5.nov.2015

Afinal, existe brincadeira de menino e de menina?

Quando uma mãe está grávida, uma das primeiras perguntas que as pessoas fazem sobre o bebê é: menino ou menina? Esse questionamento, feito por quase todos, não só responde qual o sexo da criança, mas também “inaugura” o espaço e o lugar dela na sua família e na sociedade. E tudo muda muito de acordo com a resposta sobre o seu gênero. Inclusive os brinquedos dos quais ela terá acesso para brincar!

Mas será que ser menina ou menino precisa definir tudo o que a criança “deverá” brincar e quais atividades irá realizar? Desde cedo vemos a sociedade como um todo ir definindo o que diz respeito ao masculino e ao feminino. Já é pré-estabelecido que meninas deverão ser vaidosas e consumistas, além de desde cedo serem doutrinadas a “se valorizar” e arrumar um bom marido. Para isso existem muitos brinquedos relacionados aos “cuidados do lar”, como panelinhas e comidinhas e ao cuidado pessoal, como maquiagens. Já os meninos são ensinados desde cedo que devem ser fortes, “másculos” e não devem demonstrar fraqueza, se possível nenhum sentimento, pra não acharem que “é gay”. Para isso existem carros de corrida, armas, espadas, soldados e afins.

Acontece que esse mundo do preconceito não está dentro da criança. Ele vai sendo apresentado para ela e, pouco a pouco internalizado como o “certo”, como o “normal”. Se um menino escolhe brincar de boneca ou tenta calçar o sapato da mãe, a grande maioria dos adultos instantaneamente pensa: “Acho que esse guri vai ser gay”. Só que um menino brincar de boneca não quer dizer que ele está definindo sua orientação sexual. Diz apenas que ele está identificado com o cuidado, proteção, afeto e segurança que recebe de ambos os pais e repete essa situação com a boneca. Até os quatro anos aproximadamente as crianças inclusive desconhecem a diferença anatômica entre homens e mulheres – para elas são todos iguais. Da mesma forma que uma menina pode adorar brincar com carrinhos, espadas e super heróis.

Recentemente o tema de redação da prova do Enem 2015 foi sobre “a persistência da violência contra a mulher na sociedade brasileira”. Indo mais além, foi solicitado aos estudantes que pensassem em alguma proposta de intervenção, buscando uma possível solução. Acredito que esse tema seja muito pertinente e tenha tudo a ver com a primeira infância pois, como foi falado anteriormente, existem crenças preconceituosas relacionadas ao masculino e ao feminino que estão enraizadas na sociedade, e que fazem com que muitos homens acreditem de fato que têm domínio e vantagens sobre as mulheres. Um dos únicos possíveis caminhos para mudança está justamente na educação das crianças.

Quando meninos e meninas forem tratados da mesma forma e possam brincar do que quiserem, podendo brincar de casinha, comidinha e boneca livremente, talvez aí se abra a possibilidade de uma nova geração de homens que respeitem e valorizem as mulheres, dividindo com elas a responsabilidade da casa e dos cuidados com os filhos e de mulheres que se sintam donas do seu próprio corpo e desejo, livres e merecedoras das mesmas oportunidades e direitos que os homens!

Manoela Yustas Mallmann

Psicóloga Clínica

CRP 07/20863

Especialista em Psicoterapia da Infância e Adolescência

Contato: (51) 9559-2905

e-mail: [email protected]

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