12.ago.2015

Bem vinda, adolescência – Uma carta aos pais!

Queridos pais,

 Seu filho ou sua filha (ou no plural, se for o caso), de repente… Está contrariando a maioria das coisas que você fala e, por vezes, parece sentir vergonha de você? Está mais distante, silencioso, isolado e prefere os amigos à sua aconchegante companhia? Está se vestindo de um jeito que, para você, parece estranho? Passa muito tempo no banho, trancado no quarto, falando no celular e usando uma linguagem completamente desconhecida? Todas as alternativas (e mais um pouco)?

Parabéns! Você acaba de ser contemplado com um filho adolescente!

É, o tempo passa. Voando, na maioria das vezes. E por conta disso, a transição de uma fase à outra no desenvolvimento das, até então, crianças, acontece como que num feixe de luz.

A adolescência surge, geralmente, pegando a todos de surpresa. Pai, mãe, tios, avós e, inclusive, o próprio jovem. É uma fase (sim, é uma fase!) que todos sabem que, cedo ou tarde, vai chegar. No entanto, lidar com ela é uma tarefa que exige muito mais do que boa vontade e expectativas. Para acolher e educar um adolescente, é necessário, a vocês, principalmente, continência, persistência e o reconhecimento das próprias limitações.

Se é que existe uma ordem, posso dizer que o primeiro passo é buscar compreender melhor esse momento de vida de seus filhos. Ao contrário do que a maioria pode pensar, não é com o propósito de aborrecer que o teenager adere a certos comportamentos. Está bem, está bem; às vezes, até é. Mas, mesmo assim, por trás de cada conduta, existem várias emoções novas, desconhecidas, assumindo o controle da situação.

Basta forçar um pouquinho a memória e tentar lembrar de sua própria adolescência. É um misto de euforia e medo, causados pelas descobertas e pelos lutos, próprios da etapa. Por não entender o que está acontecendo no corpo e na mente (e no mundo, e no seriado preferido, e com a “droga do 3G”), somado à explosão hormonal, o adolescente pode ficar, em alguns momentos, mais irritado, intelectualizado, contestador, ou “rebelde”, causando pânico em muitos pais.

Uma nova anatomia, uma nova voz, novos pontos de referência. Novas exigências (como pensar no futuro, por exemplo), novas sensações e novas possibilidades. Tudo isso faz com que, inevitavelmente, ele fique mais voltado para si mesmo, passando a ideia de um egoísmo. Ao mesmo tempo, a contradição de clamar pela autonomia e não estar 100% apto à independência, bem como bater o pé em convicções, sem nem ao menos saber quem realmente é. É um momento de (re)organização da mente, das ideias, que fragiliza o jovem, despertando-o para atitudes onipotentes como forma de autoproteção. A caminhada pela busca de si recém começou e, como consequência, ele está deixando para trás um mundo que, até então, era conhecido como “meus pais”.

Penso que, mesmo sabendo das características básicas desse estágio de vida de seus filhos, vocês serão, naturalmente, acometidos por sentimentos de angústia, dúvida, ciúmes, inveja e raiva, que não serão mais intensos do que aqueles de amor, carinho e admiração por seus filhotes. Faz parte.

O desabrochar juvenil repercute nos pais, em geral, como um convite a questionar a própria personalidade. Juntamente com os filhos, vocês terão que assumir uma nova postura diante da realidade dolorosa, que grita: o pequeno está se tornando um adulto!

Nesse momento, surge a necessidade de uma redefinição de limites espaciais (internos e externos). Avistar a fronteira entre a privacidade (fundamental a partir desse período) e o controle (por vezes, negativamente invasivo e, por vezes, positivamente educador) torna-se basilar para uma comunicação saudável e efetiva no núcleo familiar.

Além disso, é vital que vocês – pais – estejam abertos à escuta, na perspectiva de um diálogo com os filhos e não de um monólogo. De maneira alguma estou dizendo que abram mão de suas convicções! Estou sugerindo que possam ser continentes com a diferença e que, também, possam aceitar as imperfeições de ambos (pois é, nós adultos também erramos muito!). Essa capacidade contribui para um sentimento de segurança e respeito por parte do adolescente, facilitando que ele se identifique e integre seu caráter.

Pais: fujam da permissividade e assumam sua autoridade! Não tenham medo de expressar seus valores e pontos de vista de maneira firme. É importante ser autêntico e claro, ao falar com os filhos, pois, dessa forma, vocês permitem que eles se espelhem no exemplo e escolham, de maneira positiva, o que fizer mais sentido. Estamos muito mais na era do modelo do que da imposição!

Ah! Também indico que, com o mesmo tato, tolerem os silêncios. É inerente ao ser humano digerir a informação, para então, elaborar.

Eu entendo que a adolescência não é nada fácil. Entendo que ela produz um sentimento de ansiedade (em ambos). Além disso, o crescimento e o afastamento dos filhos podem gerar uma sensação de vazio e o reconhecimento da idade, da finitude. Contudo, se bem compreendida, ela – a adolescência – pode se tornar uma oportunidade, também aos pais, para redescobertas: um espaço de autoconhecimento, amadurecimento e evolução. Não se trata de não perder o controle dos filhos, mas de não perder o controle de si mesmos. Para isso, se informem, conversem, peçam ajuda se preciso. Mas não terceirizem sua responsabilidade ou desistam, por medo de falhar. Educar é uma arte subjetiva. Aventure-se, confiando em você como principal autor dessa obra.

Atenciosamente,

Juliana Neves

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