9.jul.2015

Como falar com as crianças sobre famílias homoafetivas ?

O conceito de família vem se modificando ao longo do tempo. Por muitos anos, ao falar a respeito deste tema, subentendia-se que ela era constituída por mãe, pai e filho (s). No entanto, é cada vez mais evidente que, embora ainda exista em grande número, essa configuração parece não ser mais tão predominante na sociedade atual. Vemos crescer consideravelmente o número de famílias com outros (novos) tipos de configurações, como monoparentais, homoafetivas ou com recasamentos.

Já passamos por três grandes períodos na evolução da família. O primeiro é o chamado de “família tradicional”, conhecido pela autoridade patriarcal, que não levava muito em consideração o desejo de cada um, e sim o que era mais conveniente (os chamados casamentos “arranjados” de antigamente). Após isso surgiu a “família moderna”, até meados do século XX que já passou a levar mais em conta os sentimentos e desejos de cada um, mas sempre concretizados pelo casamento. Foi só em 1960 que se chegou na terceira fase, na qual emergiu a “família contemporânea”. Ela é formada por dois indivíduos que têm por objetivo comum relações íntimas e realização sexual, não necessariamente unidos pelo casamento propriamente dito.

Tudo isso serve pra mostrar o quanto o que se conhece por família mudou! É visível o quanto as pessoas foram tendo maior liberdade de satisfazer seus desejos e vontades, principalmente as mulheres que puderam, após o anticoncepcional, tornarem-se mais “donas” do seu próprio corpo e desejo! Com tudo isso, foram surgindo novos arranjos familiares que deixaram de existir sob a lógica de um modelo de estruturação (pai, mãe e filho). Porém, a realidade não é tão simples. As coisas mudaram muito, mas na prática o preconceito existe de forma muito intensa e nas mais diversas formas. As redes sociais, por exemplo, estão aí para mostrar o melhor e o pior das pessoas.

Nos dias atuais as crianças têm muito acesso à informação e ao conhecimento. Alguns pais, em função disso, sentem-se “na obrigação” de falar certas coisas para elas antes que “fiquem sabendo” por outros meios. Um dos pontos que geralmente causa muitas dúvidas nos pais é como abordar a questão da homossexualidade com as crianças.

Assim como qualquer descoberta e nova constatação, todas as crianças têm o seu tempo de aprender sobre o que ainda não conhecem. Em torno de 3 e 4 anos os pequenos começam a dar-se conta, por exemplo, da diferença dos sexos, além de começarem a desenvolver teorias sobre a origem dos bebês. Essas dúvidas são totalmente esperadas e devem ser sanadas à medida em que a criança pergunta, em uma linguagem simples,

respondendo a sua pergunta, sem inundá-la de informações que ela ainda não tem capacidade psíquica e cognitiva de entender.

As relações homoafetivas devem ser tratadas com a naturalidade que elas deveriam ter na sociedade. Os adultos tendem a pensar que a criança ficará confusa ou perdida com a ideia de dois homens ou de duas mulheres constituindo um casal. Porém, nessas horas as crianças mostram a sabedoria, naturalidade e espontaneidade que o adulto parece já ter perdido há muito tempo… ela só vai “aprendendo” a ter preconceito a partir das experiências que vive, nas quais vai internalizando o preconceito que existe a sua volta.

Acredito que o melhor jeito de conversar com as crianças sobre as relações homoafetivas é de forma natural, livre de preconceitos e quando ela demonstrar interesse em saber, assim como ela vai demonstrar curiosidade a respeito das relações amorosas num todo – a homoafetiva é apenas mais uma-. Porém, para que isso se dê de forma natural e não vire um tabu, é preciso que o ambiente em que a criança vive não seja preconceituoso, tanto o familiar quanto o escolar. O adulto precisa ter em mente que a homossexualidade não é uma escolha, muito menos um desvio e sim uma questão de identidade, pois a pessoa é e se vê assim.

Qualquer tipo de configuração familiar pode proporcionar um desenvolvimento saudável e amoroso para uma criança, seja na dita família “tradicional” (pai, mãe e filho), como na monoparental (composta por apenas um dos pais), com pais homoafetivos ou na formada por um recasamento. Da mesma forma que qualquer um dos arranjos familiares citados acima pode compor uma família na qual o tipo de funcionamento e de vínculo traga prejuízo na vida da criança. O que vai definir isso não é o tipo de configuração e sim o modo como os indivíduos dentro dela se relacionam. Um casal homoafetivo, por exemplo, pode ter muito bem internalizado dentro de si como desempenhar bem as funções materna e paterna e exercê-las de uma forma muito mais saudável do que um casal composto por um homem e uma mulher.

Os adultos deveriam aprender mais com a naturalidade dos pequenos para quem sabe um dia podermos viver em uma sociedade na qual exista respeito às diferenças e à liberdade de cada um!

Manoela Yustas Mallmann

Psicóloga Clínica

CRP 07/20863

Especialista em Psicoterapia da Infância e Adolescência

Contato: (51) 9559-2905

e-mail: [email protected]

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