24.set.2014

Falando sobre as perdas com as crianças

falando sobre perdas com as criancas

Não é nada fácil falar sobre perdas, morte ou sobre o fim da vida, seja a de alguém próximo, como um dos pais, avós ou até mesmo os bichinhos de estimação. Imagina então, falar para os pequenos! Mas isso, não é motivo para não ser falado. Até mesmo porque, experiências de perda constituem um processo natural e integrante da vida e estão associadas ao crescimento de qualquer pessoa, independente de sua idade.

Hoje notamos uma mudança na cultura, a de que cada vez se tem menos recursos para dar significado à morte, sendo o tempo do luto mais curto e os procedimentos mais burocráticos. Então, é importante que a criança também faça os seus lutos pelas perdas e para isso, precisa de tempo, compreensão e acolhimento do adulto. Outra mudança percebida na cultura refere-se a necessidade em informar a criança sobre a morte de um familiar, por exemplo. Porém, processar a morte de alguém é um processo de pensamento que envolve diferentes afetos, e que nada tem a ver com o “estar informado sobre” algo. Por isso, a necessidade de, nestas situações, estarmos disponíveis e darmos tempo para a criança processar a informação e observar suas reações.

Após uma perda significativa, as crianças podem experimentar uma confusão de sentimentos, que irão desde a tristeza e depressão até a culpa e a raiva. Não temos como prever exatamente como uma criança reagirá, elas são diferentes umas das outras, e reagem de modos distintos.

O processo de luto é individual e também dependerá de como os adultos que convivem com ela, lidam com as perdas. No entanto, algumas alterações no comportamento costumam surgir em diferentes contextos, seja no familiar, seja no escolar, exemplos deles são: queda do rendimento na escola; baixa atenção e concentração; apetite diminuído ou aumentado; pouco ou muito sono; dores de barriga; medo; ansiedade; comportamento agressivo; entre outros. Por isso, é importante estarmos atentos aos pequenos nestas situações.

Em qualquer idade é fundamental que os pais (e demais adultos que convivam com a criança) criem espaços para os filhos falar e exprimir emoções passe o tempo que passar. De forma geral, crianças pequenas em torno dos 2 anos de idade não conseguem ter a capacidade de entender a idéia da morte ou da separação e podem querer, por exemplo, procurar pela pessoa que faleceu. Após essa idade até os 5 anos, existe um temor de, por exemplo, se separar dos pais e costuma lidar com a perda apresentando comportamentos regressivos. Ou seja, passa a fazer coisas que não mais fazia, como voltar a fazer xixi na cama. E é, a partir dos 5 ou 6 anos de idade, que de fato, os pequenos começam a compreender o significado da morte.

Se seu filho estiver na escola, o apoio das professoras ou das “tias” é igualmente importante, por isso, explicar o ocorrido para escola é preciso, bem como a própria escola se dispor a ter um contato com a família para perceber como “estão as coisas”, tanto com a criança, quanto com sua família. Além disso, o retorno para as atividades escolares é necessário! A rotina escolar, com suas horas de intervalo, com o convívio com os “amiguinhos”, com as reuniões, dão um senso de que a vida continua.

Caso a criança esteja atravessando com grande sofrimento ou com alterações no comportamento que estejam prejudicando sua rotina, a avaliação com profissionais especializados, como um psicólogo é preciso.

Mas, e quando é chegada a hora de contar para a criança! Como fazer? O que falar? Contar ou não? Nesses momentos, não existe “mágica” ou “fórmula”. É preciso primeiro, criar um contexto seguro e de partilha de afetos – isso quer dizer que, não é saudável para ninguém evitar falar do assunto, escondendo a perda da criança, pois tal atitude pode levar à falta de confiança e a sensação de exclusão da família.

É indicado então, falar a verdade com uma linguagem simples e clara, de forma que a criança entenda, e de acordo com aquilo que ela manifesta querer saber. Uma maneira é começar explicando que a morte é um processo natural que faz parte da vida das pessoas, dos animais e das plantas e seguir, contando o motivo pelo qual a perda aconteceu (doença, acidente, envelhecimento, etc), sempre considerando o luto como algo a ser falado e também, aproveitando para mostrar como as pessoas podem se ajudar em momentos de tristeza.

Não é aconselhado, esconder ou inventar histórias para poupar os filhos, ok? Falar coisas como “o vovô foi dormir e não vai mais acordar”, pode gerar uma relação “sono-morte” que poderá ser assustadora para a criança e trazer-lhe medos, como o medo da noite ou de dormir. Ou ainda, dizer que “foi fazer uma longa viajem” pode gerar inseguranças em relações a viagens ou ausências, ou achar que todo mundo que viaja, não volta. Outro exemplo,é falar que alguém foi embora e não voltará, isto criará confusões e pode causar sentimentos de abandono. Enfim, exemplos como estes, há muitos! E por isso, é que temos que lembrar que é comum a criança fazer uma interpretação literal e concreta do que lhe é falado.

Outro ponto importante é dar a oportunidade de a criança, caso queira, participar dos rituais de despedida. Sabemos que eles servem para que todos vivenciem melhor a despedida, inclusive as crianças. E se, por acaso, você mamãe ou papai não saiba responder todas as respostas, porque, afinal, nem sempre saberemos tudo, que tal dizer “não sei” e se propor a buscar explicações junto com seu filho?

Luiza Cantarelli Coradini
Psicóloga Clínica
CRP: 07/20819

Especialista em Psicoterapia da Infância e Adolescência em formação Email: luizacoradini@gmail.com, pergunte sobre o desconto para leitoras do Blog.

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