15.abr.2015

Do filho imaginado ao bebê real

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Todos nascem com uma história, que vem se escrevendo muito antes da sua chegada e que, além de singular, exerce uma grande influência na vida de cada um. A história que precede a vida de um bebê engloba a família materna e a paterna, além da vida de dois indivíduos que, sendo um casal ou não, geram um filho. Ou seja, quando uma mulher fica grávida, de maneira planejada ou não, muitos sentimentos, desejos, expectativas e medos estão envolvidos! O novo pai e a nova mãe vão, mesmo sem saber, criando o que “entendem” por paternidade e maternidade ao longo da vida: todos nós vamos criando a nossa “ideia” respeito de ter ou não um filho desde a infância, com uma grande influência do que foi recebido ou não dos pais. 

Tudo isso forma a representação que já se tem a respeito da parentalidade, muito antes do bebê nascer. Quando a gravidez é confirmada, tudo isso que já estava dentro do futuro papai e da futura mamãe “floresce”! Aí sim aquele bebê começa a ser imaginado em cada mínimo detalhe: desde a cor do cabelo, dos olhos, tamanho do nariz, da boca, se vai ser alto, magrinho, mais “cheinho”, se vai dormir a noite toda, se vai ser calmo ou agitado, enfim, se começa a imaginar um bebê, que acaba sendo muito baseado nos desejos dos pais e na história familiar de cada um!  

A partir daí começa a se criar na mente dos pais o “bebê imaginário”. Esse momento é normal e muito importante na vida dos novos pais. Tudo isso ajuda na “preparação” para o novo papel que eles vão assumir na família: não serão mais apenas filho (a), irmão (a), tio (a), neto (a) e etc: com o nascimento do bebê, também nascerão uma mãe e um pai. Essa mudança transforma as suas vidas, encanta mas também assusta! O período da gestação acaba sendo um momento no qual a mulher e o homem revivem muitos sentimentos relacionados a sua própria infância, que são muito profundos e ambivalentes. O cuidado que se recebeu ou não quando criança irá influenciar de maneira significativa a relação que os novos pais irão desenvolver com seu bebê.  

Hoje em dia a tecnologia ajuda muito na imagem que os pais e a família vão criando do seu filho. As ultrassonografias contam com aparelhos cada vez melhores, que permitem que muitos detalhes sejam vistos. A imagem em 3D proporciona uma visão quase nítida do feto, o que sem dúvida se incorpora ao bebê imaginado. O pré-natal, além de ser essencial para a saúde da mãe e do filho (a), tem extrema importância na relação que os pais vão desenvolvendo com seu bebê, incrementando o que eles já imaginam dele.  

A criação desse dito bebê imaginário pode ser vista como uma forma dos pais se prepararem para exercer a parentalidade. Já é sabido que, com a chegada do bebê, tudo vai mudar de maneira definitiva! Tudo que já vem sendo imaginado para o bebê faz com que os pais já desenvolvam uma interação com aquele novo ser, investindo na relação com ele. Com isso os pais já vão conseguindo pensar e refletir sobre as suas novas responsabilidades e papéis que irão assumir com o nascimento do bebê. 

A grande virada acontece, logicamente, após o nascimento da criança. O próprio parto já é planejado de uma maneira e pode acontecer de uma forma muito diferente. A partir daí os pais começam a lidar com o bebê real, que enfim chegou, que está na frente deles e não mais dentro da barriga. É importante que se tenha em mente que expectativa e realidade não são iguais! Muito pelo contrário, isso é bem difícil de acontecer! O bebê que nasce pode ter características “melhores” e/ou “piores” do que foi imaginado pelos pais e pela sua família, mas dificilmente elas serão iguais ao que se imaginou para o bebê!  

Em alguns casos a diferença é gritante, podendo trazer dificuldades para os pais na adaptação com seu filho ou filha. Mesmo já podendo se ter conhecimento de muitas informações na gravidez, se deparar com o bebê com alguma doença ou complicação, por exemplo, é muito difícil para os pais, que terão que lidar com uma série de sentimentos ambivalentes dentro de si, precisando muito do apoio da família e da equipe médica.  

Criar um bebê imaginado na mente dos pais é um processo importante  que os auxilia a lidar com todos os sentimentos que envolvem a chegada de um filho. É um momento que gera muitas alegrias, mas também muitos medos. A medida em que os pais vão conhecendo e se apaixonando pelo seu bebê real, aquela imagem construída ao longo de 9 meses deve ir “desaparecendo”, dando lugar ao bebe que está crescendo e se desenvolvendo, de maneira semelhante ou não ao que os pais imaginam.  

A história familiar de cada um é essencial na sua constituição. É natural que existam expectativas em relação aos filhos, mas é importante que os pais as tenham sem colocar neles uma identificação inflexível, que pode acabar “definindo” a vida do filho baseada apenas no desejo dos pais. Existe uma grande diferença entre o filho imaginado e o filho real. É essencial para uma criança que ela seja desejada e investida pelos seus pais, pois isso ajuda-a a desenvolver sua segurança e auto estima, porém isso não deve ocorrer de uma forma rígida e invasiva, pois pode acabar impedindo que ela desenvolva os seus próprios desejos e expectativas em relação a sua própria vida. Para que todo esse processo ocorra da melhor forma possível os pais têm um grande trabalho e responsabilidade, aprendendo a cada dia a lidar com suas expectativas, mas também com suas frustrações, devendo cuidar para que seu filho não vire uma projeção de seus desejos não realizados e sim alguém com sua própria subjetividade.  

 

Manoela Yustas Mallmann 

Psicóloga Clínica 

CRP 07/20863 

Especialista em Psicoterapia da Infância e Adolescência  

Contato: (51) 9559-2905 

e-mail: [email protected]

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