20.jul.2016

A maternidade como oportunidade de transformações

Durante o período da gestação, a mulher pode ter diversos planos com relação à forma como vai organizar a sua vida com a concretização da maternidade, porém só com a vivência saberá se esses planos serão colocados em prática e, na maioria das vezes, não ocorre conforme idealizado. Cada mãe tem a sua experiência pessoal, não existe uma forma única de vivenciar o nascimento de um filho e também depende do momento de vida de cada família, assim como de experiências passadas de cada um. Após aquele período em que o bebê nasce e que, gradualmente, vai se desenvolvendo, e a mãe passa a ter um espaço maior para pensar em si, ela pode passar a questionar: “do que eu gosto? O que eu quero para minha vida? Qual é o meu projeto? Quem quero ser a partir de agora?”

Para começar, na maioria dos casos, a mãe não é mais “ela”, mas passa a ser “nós”, ou seja, ela e o bebê. Com isso, sem se dar conta, de uma forma natural, passa a apresentar uma forte identificação com o seu bebê e aí é como se estivesse crescendo e se desenvolvendo de novo. Após o momento em que a mãe volta a pensar mais em si, é importante que faça um plano para o futuro, pois o bebê irá crescer e precisará ter o seu plano de existência, separado da mãe e, a mãe, por sua vez, também precisa ter o seu. E é aí que vem a parte inesperada: seus gostos podem passar a ser questionados, o tempo que ocupava com algumas atividades antes da maternidade pode precisar ser revisto e, em alguns casos, dar novas prioridades. Para algumas, é tranquilo, mas, muitas vezes, esses questionamentos mexem com a noção da identidade da mãe.

Para que mãe e o bebê possam passar por esse processo de transformação e criação da identidade, respectivamente, é necessário um primeiro momento de “caos”, ou seja, a mãe e o bebê sendo “nós”, um momento em que não há uma diferenciação clara entre as duas pessoas, em que a mãe não consegue fazer muitas coisas só para ela, sem envolver o seu bebê, e o bebê necessita que a mãe o traduza ou fale por ele o que ele quer. Com o passar do tempo, naturalmente, deve despertar em ambos a noção de “eu”, não só a de “nós”, em que o bebê demonstra um pouco de autonomia, mesmo que seja por alguns minutos, brincando sozinho por exemplo, e a mãe desperta deste estado de mistura com o seu bebê e passa a rever o que construíra até então em sua vida: sua rotina, seus gostos, sua carreira, seus relacionamentos, enfim, todos os aspectos de sua vida.

O bebê tem toda a infância para constituir as suas características pessoais e seus gostos. Já a mãe, apesar de ter passado por um período de muitas mudanças, é uma adulta e não tem todo este tempo. Por isso, pode ser que se sinta pressionada a ter que retomar toda a sua rotina anterior à maternidade. Ao mesmo tempo, é um período em que é proporcionada uma oportunidade para assumir esta identidade transformada e novos projetos de vida, aproveitando-se de sua bagagem e experiências vividas. Pode ser que ela assuma novamente todas as tarefas que já realizava anteriormente, porém, com a experiência da maternidade, a sua vivência será outra. Muitas vezes, pode exigir coragem, iniciativa e muita reflexão, talvez até uma ajuda profissional, porém, pode ser mais compensador e gratificante do que vivenciar um sentimento de vazio ao manter tarefas ou valores que não são mais úteis para esta nova etapa.

 

Cristine Boaz

Psicóloga Clínica,

Especialista em Psicoterapia Psicanalítica,

Mestre em Psicologia Clínica.

Psicóloga do PIM – Primeira Infância Melhor e

Sócia do Projeto Matryoshkas

(CRP: 07/16606)

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