19.dez.2016

Meu filho é inteligente, comunicativo, criativo, divertido… Ah! E é surdo também.

Oi gurias, hoje tem post com participação da Ju, que é psicóloga e colunista do Blog. Ela falará sobre um assunto super importante, a surdez e inclusão social. Para quem gosta de dicas de seriados indico o Switched at Birth que mostra a vida de duas meninas que foram trocadas no nascimento e aborda a surdez. Beijo Angi

” Eu resolvi colocar esse título porque, apesar de longo, representa o que pretendo, de uma maneira geral, com a minha escrita: desrotular a surdez. Até pensei em usar o termo “desmistificar” a surdez, mas acredito que algumas questões podem ser muito subjetivas e precisam de uma ressignificação interna – de cada um – para romper com determinadas fantasias em torno das diferenças. No entanto, independentemente do tempo e da forma como algumas pessoas vão elaborar, aceitar e construir sua relação com a deficiência do outro, é fundamental romper com alguns estigmas sociais que, muitas vezes, atravessam (negativamente) os vínculos afetivos, sobretudo, entre pais e filhos. 

Por mais contextualizados, informados e cheios de garra que os pais possam ser, deparar-se com a notícia de que o filho é surdo, tende a ser um grande choque. Me refiro, principalmente, a pais ouvintes que depois de algumas vivências com o seu bebê, constatam a falta de audição. Antes mesmo do pequeno vir ao mundo, as expectativas de uma criança teoricamente “perfeita” (como se isso fosse possível) costumam fazer parte do imaginário familiar. Dificilmente encontramos alguém de peito 100% aberto para a desconstrução desses ideais. É algo que vai acontecer aos poucos. Contudo, é algo que deve acontecer.

Como diz Patrícia Witt, em seu livro “Surdez: silêncio em vôo de borboleta”, a surdez é a própria diferença (p. 68). Portanto, não tem como ser negada. Tudo bem que, num primeiro momento, um turbilhão de emoções costumam acometer os pais, gerando angústias, medos e uma certa dificuldade em acolher a situação. É natural, faz parte. No entanto, de maneira alguma os mesmos podem esquecer de que para além deles, existe alguém precisando de cuidados, adaptações ambientais e amor, que não podem ser negligenciados. Entenda “ambiente”, acima de tudo, como a capacidade dos pais de dialogar com o filho. Investir na comunicação é vital!

Infelizmente, em alguns casos, ao saberem que o bebê não ouve, muitos cuidadores se calam. Param de embalar, de cantar e de olhar para o pitoco da mesma forma: “ele não ouve mesmo”. Saibam que esse desinvestimento pode ser aniquilador. Esse abandono, mantém a criança isolada do mundo e a impede de se desenvolver. Esses cuidados primários estão muito além da voz. Eles abrangem o toque, o olhar, as expressões e uma conexão baseada em sentimentos, que garantem o bem estar e a sensação de segurança que todos precisamos.

Nos anos seguintes não é diferente a necessidade do aporte familiar. Para tanto, encontrar uma via de troca que permita o intercâmbio de informações, é imprescindível. É recomendado que linguagem seja estimulada desde o princípio, para que a criança assimile tanto as experiências externas quanto as internas, desenvolvendo assim sua autonomia e personalidade.

Apesar de nem todos os surdos a utilizarem, a Língua Brasileira de Sinais é a forma de interlocução mais frequente. Além de ser a segunda língua oficial do Brasil, a LIBRAS possibilita, através de sinais, gestos e expressões, um total entrosamento entre aqueles que a dominam (ou buscam aprender). Além de ser uma excelente ferramenta para que os pais consigam traduzir o meio para o filho (e o filho traduza seu meio para os pais), ela contribui no empoderamento dos surdos. Apropriados da língua, articulam e expressam, de forma mais livre, seus pensamentos, ideias e criatividade.

Aliás, a ideia de que surdez e incapacidade são sinônimos, já foi superada há muito tempo. É possível que muitos pais aflijam-se – por falta de conhecimento -, sobre o futuro do filho. Para esse receio, posso tranquilizá-los dizendo que se for garantido ao surdo, espaços onde ele possa apurar ao máximo o seu potencial, a surdez instaura-se como uma característica e não como um problema.

Surdo brinca, surdo cria, surdo aprende, surdo ensina. Surdo namora, surdo dirige, surdo transa, surdo engravida. Surdo sonha, surdo briga, surdo ama, surdo dança. Surdo faz faculdade, surdo trabalha, surdo escreve livros. Surdo tem muito à dizer. Surdo fala. Surdo não é mudo. A surdez não é sinônimo de silêncio e inaptidão. A surdez convida a um novo lugar de escuta, a uma nova cultura. A surdez faz barulho e desacomoda. Com isso, leva a todos que estão a sua volta a uma belíssima transformação: de lagartas em borboletas.

*** Para quem tem interesse em conhecer mais sobre a surdez, recomendo o livro da Patrícia Witt, “Surdez: silêncio em vôo de borboleta”. Trata-se de uma obra autobiográfica, na qual a autora conta sobre sua surdez, considerando os desafios, as tristezas e alegrias.

Gurias, ela está escrevendo a segunda edição e precisa da nossa ajuda para poder realizar esse trabalho e missão maravilhosa, contamos com a sua contribuição acessando o link: https://www.catarse.me/livro2edicaosurdezborboleta .

Até Logo,

Juliana Neves é psicóloga  – CRP 07/18462 e atende em psicoterapia, adolescentes e adultos. Mestranda da UFRGS, pesquisa sobre Psicanálise e Surdez. É idealizadora do espaço eletrônico de psicologia, Simples Insight.

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