27.nov.2015

Pai é pai

Na sociedade em que vivemos é mais do que natural a ideia de uma mãe criando um filho sozinha. Afinal, mãe é mãe, não é mesmo? É, claro que é! Só que a lógica de que PAI É PAI deveria ser tão familiar aos nossos ouvidos quanto a primeira. Mas por que isso não acontece? Bom, para refletir sobre isso, primeiro temos que contextualizar as famílias da atualidade, que mesmo com configurações ditas modernas, ainda sofrem com os resquícios de uma sociedade patriarcal e machista.

Basta observar a reação das pessoas quando se deparam com um pai que cuida de um bebê sozinho. Saber que uma mãe se ausentou da vida da filha ou do filho (que não por falecimento) causa, no mínimo, espanto. Como assim? Que tipo de mãe é essa que abandona a criança? Que desnaturada! Enquanto a mãe é julgada e criticada, o pai é visto como um verdadeiro herói quando assume os cuidados da criança sozinho!

Mas o que torna um pai que cria os filhos sozinho uma pessoa admirada e respeitada enquanto uma mãe que assume o seu bebê é vista como fazendo o “mínimo”? Não existe uma resposta direta e objetiva para essa pergunta, porém ela traz uma série de questionamentos. É intrínseca na sociedade a noção de que a mãe tem que cuidar, educar, ser presente e ativa na vida dos filhos, enquanto ao homem pode reservar-se apenas o direito de pagar uma pensão.

Crescemos com a ideia de que a mãe é quem sabe e deve cuidar dos filhos e ponto final. Essa função é dela e de mais ninguém. É quase como se o homem fosse absolvido de qualquer responsabilidade. Fica subentendido que, após uma separação, é a mãe quem deve ficar com os filhos. Logicamente não se pode generalizar e felizmente existem homens que ocupam seu papel sem acharem que isso os torna melhores, superiores aos outros homens, pois, afinal de contas, estão apenas cumprindo sua função de pai. Porém, na grande maioria das vezes não é isso que vemos acontecer. O que se vê são pais ausentes, pouco interessados e negligentes, muitas vezes não por não amarem ou não se importarem com os filhos, e sim por acreditarem de fato que essas são atribuições da mãe.

As raízes disso vão se formando quando esses pais ainda são crianças. A lógica de que a mulher trabalha em casa e/ou fora, cuida dos filhos e da casa, passa noites em claro e acorda pra fazer tudo de novo no outro dia, enquanto o homem deve trabalhar, prover a maior parte do sustento da casa e ter claro, seu merecido descanso, cresce junto com todos nós. A menina brinca de boneca e de casinha enquanto o menino pode brincar de carrinho e de jogar bola. A própria brincadeira atribuída o gênero masculino é livre, dá ao futuro pai o direito de correr, se movimentar, sentir-se livre.

A mudança desse tipo de lógica é algo lento e a longo prazo. Mas ela tem que começar de algum lugar. Muitas pessoas têm a ideia de que com a falta do pai a criança “se acostuma”; já a da mãe é insubsituível. Porém a ausência do pai ou de uma figura paterna causa falhas e lacunas tão dificeís de preencher quanto a falta do cuidado materno. A questão é que a falta do pai acaba sendo “mais aceita”, até mesmo esperada na sociedade. É preciso desconstruir a ideia de que é natural que uma boa parte dos pais seja presente apenas pela ausência que causa na vida da criança.

Uma mãe que cria e educa seus filhos sozinha faz tudo o que está ao seu alcance, mas nunca vai conseguir apagar totalmente o abandono sofrido. E é importante que ele não seja negado e nem baseado em uma mentira. A verdade sempre deve ser dita para a criança, logicamente de uma maneira que ela possa entender, sem exageros e sem fazer do pai um monstro quando existem desentendimentos. Essa tarefa é muito difícil, pois a mulher muitas vezes tem mágoas e ressentimentos em relação ao ex-companheiro. Porém, não conhecendo o pai, a criança vai criar a sua imagem e representação dele a partir do que a mãe lhe contar. E se só vierem aspectos ruins à tona, a criança pode justamente acabar repetindo caracteísticas parecidas por querer de alguma forma se identificar com esse pai, que afinal de contas também faz parte da sua história.

Não é fácil para uma mãe ter um filho sozinha, ainda mais quando essa não é a sua vontade (algumas mães optam por uma produção independente). Acredito que apenas uma mudança no que diz respeito à noção de paternidade é que pode, gradualmente, fazer com que o pai sinta-se tão importante e responsável no crescimento e na educação de seus filhos quanto a mãe, sendo os dois um ponto de referência e segurança para a criança, que assim poderá se desenvolver e se relacionar de forma mais plena e saudável!

Manoela Yustas Mallmann

Psicóloga Clínica

CRP 07/20863

Especialista em Psicoterapia da Infância e Adolescência

Contato: (51) 9559-2905

e-mail: [email protected]

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