10.fev.2014

Parto Brasil Afora {Ana Paula}

Gurias, estou em falta com os relatos de parto aqui no Blog, mas hoje compartilho com vocês o parto da Ana Paula, uma querida! Um parto onde nasceu uma filha, e renasceu uma mãe! Um parto que me inspirou, que me emocionou, pois é uma busca pessoal também! É longo, não tem como editar, diminuir, todos esses sentimentos… leiam, tenho certeza que vocês irão se emocionar, e por que não, se inspirar com essa história linda? OBRIGADA Ana Paula, por tudo! Beijos, Angi

” Este não é simplesmente o relato do meu parto. Este é o relato de uma busca, uma conquista. Este é o relato de como, às vezes, nós temos que nos despir dos preconceitos, do senso comum, das mentiras, de nós mesmos, para alcançar o que sempre sonhamos. Este é o relato não somente do nascimento da minha filha, é o relato da minha própria morte e renascimento.

Espero que a minha história toque e inspire pelo menos uma mulher a buscar um nascimento digno para seu filho, mesmo que todo o resto do mundo insista que ela não é capaz.

Não posso começar a falar do nascimento da Alice sem antes falar um pouco do nascimento da Lívia. Engravidei aos 21 anos, uma gravidez desejada, mas não planejada. Estávamos em um momento delicado do nosso relacionamento, mas a Lívia veio pra nos trazer paz, segurança, felicidade. Desde o início, eu dizia querer um parto normal, afinal, a recuperação era mais rápida, o bebê nasceria quando estivesse pronto, era a opção mais saudável pra uma gestante saudável, 1+1=2, certo? Mas não foi bem assim.

Comecei o acompanhamento com a obstetra da família, a médica que fez e acompanhou todos os partos da minha mãe, da minha tia, da minha prima, da minha cunhada. Uma senhora de confiança, que me conhecia desde o útero, que sabia todo meu histórico familiar, uma médica em quem eu confiava, ela não iria me impor uma cirurgia desnecessária, apenas por conveniência. Era nisso que eu acreditava, e era isso o que ela me passava a cada consulta do pré-natal.

Minha gestação foi relativamente tranquila, não tive muitos enjôos, não inchei, pressão sempre ok, tudo caminhava pra um parto normal. Nas minhas poucas pesquisas sobre parto, descobri que existe uma coisa chamada “doula”, mulheres que davam suporte emocional pras parturientes, e descobri também que hoje ainda muitas mulheres pariam de cócoras, e que o hospital que eu iria parir tinha uma banqueta especial para isso. Me encantei e comentei sobre o assunto com a obstetra em uma das consultas e lá veio a primeira surpresa: ela detestava doulas, dizia que elas não tinham conhecimento técnico sobre partos e só atrapalhavam o trabalho dela, e ela jamais me deixaria parir de cócoras pois era a posição que mais tinha incidência de “bexiga caída” no pós-parto e dessa maneira ela não conseguiria fazer o “cortinho” (episiotomia) pra ajudar o bebê a nascer… Tudo isso era coisa de “índia” e se eu quisesse parir assim que procurasse outro obstetra, nas palavras dela.
Mas como eu iria procurar outro obstetra naquela altura do campeonato? Com mais de 30 semanas! Como eu iria confiar em outro médico? Decidi aceitar os termos dela pro parto “normal” e continuar assim mesmo. Desencanei de parir de cócoras.

Desencanei de contatar uma doula. Desencanei de protagonizar o MEU parto. A gestação continuou saudável até as 39 semanas, quando ela me pediu uma ecografia. Fiz a ecografia com 39 semanas e 2 dias, numa quinta-feira à noite. A ecografia apontou diminuição do líquido amniótico para 10% do esperado. Perguntei pra obstetra plantonista do hospital se eu deveria ligar pra minha médica ainda naquela noite, e ela disse que não, que poderia esperar até o dia seguinte.

Na sexta-feira, fui à consulta com o laudo em mãos, já com as malas no carro pois eu imaginava o que poderia acontecer. Ao ver o laudo, minha obstetra questionou pq eu não havia ligado e avisado ela na noite anterior, disse que essa diminuição era muito perigosa, que assim como tinha 10% agora, daqui a pouco poderia não ter mais nada, e “vamos pra cesárea hoje, agora! Mas pera, vai dar uma volta no shopping primeiro, e dá entrada no hospital às 19h”. Assim foi a minha cesárea de “emergência”.

A recuperação da cesárea foi rápida, mas ficou um gosto amargo na boca de não ter entrado em trabalho de parto, de não poder ter dado banho na minha filha nos primeiros dias, de não conseguir levantar sozinha da cama, de não ter vivido essa experiência, de ter ficado tão passiva no momento mais lindo da vida de uma mulher. Eu queria querer e ali morreu um pedaço de mim. Eu sabia que não poderia mais, nunca mais, ter um parto normal, pois era muito perigoso, certamente meu útero romperia no trabalho de parto e eu deixaria meus filhos órfãos. Não é assim que funciona? “Uma vez cesárea, sempre cesárea”, era isso o que todos me diziam, inclusive minha obstetra de família, de confiança, que nunca, jamais, mentiria pra mim. Acabei me conformando mais uma vez.

Perto do aniversário de 1 ano da Lívia, comecei a suspeitar que estava grávida novamente. Menstruação atrasada alguns dias, me convenci de que era o estresse do trabalho + o aniversário da pequena. Alguns dias depois da festa, decidi fazer um exame de farmácia, só pra confirmar. Imediatamente apareceram as duas listrinhas cor de rosa. Entrei em pânico. Uma gravidez tão perto de uma cesárea? Uma gravidez com menos de 1 ano de empresa? Dois bebês? Depois de algum choro e muito pensar, consegui aceitar essa nova vida que me foi confiada. Dizem que Deus dá o cobertor conforme o frio, né? Comecei a me preparar psicologicamente pra nova cesárea, pra recuperação com um recém-nascido e uma bebê precisando da minha atenção. Não conseguia engolir o fato de que teria que me afastar do papel de mãe da Lívia por um tempo, até me recuperar o suficiente pra poder dar banho, brincar no chão, pegar no colo meu pedaço de gente. Tudo isso me desesperava um pouco (bastante). Será que não tem outro caminho?

A resposta pra minha pergunta foi dada na primeira consulta com a mesma obstetra da família: NÃO, ela foi muito categórica ao afirmar que eu não poderia ter parto normal tão perto da cesárea, que o risco de meu útero romper durante o trabalho de parto era muito alto, que ela não assumiria esse risco. Junto com essa notícia, ela me deu outra, que me deixou muito perturbada: minha data prevista de parto era 11 de janeiro, o que significava que eu faria 38 semanas entre o Natal e o Ano Novo, e ela estaria de férias no verão. Não poderia assumir meu acompanhamento, nem meu parto. Começou a saga pela busca de um novo obstetra.

Liguei para todos os conveniados do meu plano, consegui apenas duas que atenderiam nesse período. Numa quinta-feira, fui conhecer uma delas, já na primeira consulta ela sugeriu agendar a cesárea pro dia 29 de dezembro, assim que completasse 38 semanas. Na segunda, teria consulta com a outra. Pensei em não ir, pois eu já tinha conseguido alguém pra me atender, mas alguma coisa me dizia pra ir naquela obstetra. Uma médica muito jovem, também grávida, me atendeu com muito carinho.

Comentei com ela que eu faria cesárea pois tinha medo de uma ruptura uterina. Ela sugeriu que eu pesquisasse mais sobre o assunto e conversaríamos melhor na próxima consulta dali 1 mês, me disse que o risco era mínimo e que eu poderia sim ter um parto normal, que seria muito melhor pra mim e pro bebê.

Voltei pra casa com um zumbido no ouvido, inquieta com a possibilidade, comecei a pesquisar, e muito! Adicionei a doula Fabi no facebook e fiz algumas perguntas a ela. Ela me recebeu de braços abertos, ela sugeriu que a gente se encontrasse no Luz Materna pra esclarecer um pouco mais dos meus questionamentos, assim eu fui, comecei as aulas de yoga para gestantes, entrei em um grupo no facebook de Parto Natural por indicação de uma outra amiga virtual, postei minhas inseguranças e outra doula, a Kika, me adicionou para conversarmos um pouco. A Fabi não poderia me acompanhar no parto pois estaria de férias perto da data provável, então fui conhecer a Kika pessoalmente. Um doce de pessoa, muito cativante, gostei dela logo de cara. Ali começava a se formar a minha equipe.

Às 24 semanas descobri que sim, era possível parir, que muitas mulheres haviam conseguido, mas que seria melhor um parto sem intervenções, sem indução, tudo teria que acontecer naturalmente. Foi aí que entrei no maravilhoso mundo do parto humanizado. Pesquisei dia e noite, todas as horas livres que eu tinha. Descobri todas as mentiras que tinham me contado.

Descobri a violência obstétrica, a qual fui submetida sem saber, descobri as intervenções desnecessárias e doloridas às quais sofreu a Lívia. Acontece que, uma vez que se descobre o nascimento com respeito e protagonismo da mulher no parto, não tem volta. Eu não aceitaria nada diferente pra mim e pra minha filha.

Passado um mês da última consulta com a obstetra que me incentivou a abrir os olhos, retornei ao consultório, munida de perguntas-chave pra descobrir se ela realmente era a favor do parto normal, e que tipo de parto ela acompanhava. Descobri que com ela eu teria um parto cheio de intervenções, se ela não mudasse de idéia no meio do caminho e me mandasse pra faca de novo. E assim me encontrei novamente sem obstetra, com 30 semanas de gestação. Comentei com as meninas no Luz Materna e com a Kika sobre a consulta, todas me apoiaram na busca de um obstetra humanizado. O problema era que nós não estávamos preparados pra esse investimento a essa altura do campeonato, mas eu sabia que jamais me perdoaria se deixasse escapar meu parto por entre os dedos novamente. Assim agendei consulta com duas obstetras que trabalhavam baseadas em evidências científicas. Mantive acompanhamento com as duas, pois aquela que era meu plano A também não estaria disponível perto da minha data provável de parto.

Já com uma equipe formada, pude respirar aliviada. Com 32 semanas, dois dias antes do chá de fraldas, acordei de madrugada com contrações acompanhadas de cólicas. Tentei dormir novamente mas não consegui. Assim que amanheceu o dia, contei ao Leandro o que estava acontecendo, pedi pra ele arrumar a Lívia pra escola enquanto eu tomava um banho pra ver se aliviavam as contrações. Durante o banho, as contrações foram ficando cada vez mais intensas e mais próximas uma da outra. Decidimos ir ao hospital. No hospital, descobrimos que estava com o colo do útero afinado e com 1 dedo e meio de dilatação. Passamos a manhã e um pedaço da tarde esperando pra ver o que aconteceria. As contrações foram espaçando até cessar. Tivemos alta com recomendação de repouso até segunda ordem.

As semanas demoravam a passar, não podia pegar a Lívia no colo, não podia caminhar por muito tempo, passava os dias assistindo a filmes e pesquisando mais e mais sobre parto humanizado. Finalmente chegamos às 37 semanas e fomos liberadas do repouso, agora era esperar pela nossa pequena. Eu estava disposta a esperar até 42 semanas pra decidir se iríamos induzir o parto ou não, mas as coisas estavam progredindo rapidamente. Com 39 semanas já estava com 3,5cm de dilatação, colo do útero apagado. Escrevemos nosso plano de parto cuidadosamente. Incrivelmente, todas as pessoas ao nosso redor pareciam mais ansiosas do que a gente com a espera. Todos os dias mensagens perguntando se já tinha nascido, enquanto curtíamos a deliciosa espera pela Alice. Ela viria no seu tempo.

Com 39 semanas e 5 dias, uma quinta-feira, tivemos o primeiro sinal de que ela estava pronta pra chegar. Fui dormir tarde naquele dia, por volta das 2h. Às 2h30 acordei com uma leve cólica e líquido molhando a calcinha. Fui ao banheiro, troquei a calcinha e coloquei um protetor pra observar. Deitei e tentei dormir novamente. Por volta das 3h, novamente, mais uma cólica e mais líquido encharcando a calcinha. Ainda era muito cedo, mas eu sabia que conheceria minha pequena Alice antes do fim do dia. Sem conseguir dormir, mandei uma mensagem às 5h pra Kika avisando que havia chegado a hora, mas que ela poderia ainda esperar em casa até que a gente a chamasse.

Com os primeiros raios de sol, avisei minha mãe que havia chegado o dia, mas que ainda demoraria, pra ela avisar meu irmão e relaxar. Voltei pra minha casa e entrei no chuveiro pra curtir minhas contrações e o barrigão pela última vez. A cadantração, mais um pouco de líquido e de sangue. Estava tranquila, tudo estava indo bem. O Leandro arrumou a Lívia para a escolinha e a levou ao banheiro pra se despedir de mim. Beijei meu tesouro, expliquei que a mamãe sairia por uns dias pra buscar a maninha e pedi que ela se comportasse, chorei pela primeira vez. De emoção por tudo o que estava acontecendo e de culpa, por tê-la privado de escolher a sua hora de vir ao mundo e tê-la feito passar por tanto sofrimento nos primeiros minutos de vida.

Fiquei no chuveiro por cerca de 1h30, então às 9h pedi pro Leandro ligar pra Kika vir pra nossa casa. As contrações já estavam com 6 minutos de intervalo e bem regulares, fiquei de quatro apoios na cama pra cochilar nos intervalos, pois não havia descansado nada e sabia que ainda poderia demorar bastante. As contrações vinham, eu erguia o corpo e esperava passar, assim que passava, deitava novamente e cochilava. Comia um pouco de gelo e bebia água de côco pra manter o corpo hidratado. Perto das 10h a Kika chegou, nos abraçamos e trocamos sorrisos. O Leandro preparou uma bolsa de água quente e a Kika a amarrou com o rebozo na minha barriga, o que aliviou muito as cólicas. A cada contração, meu corpo se erguia e alongava. Não conseguia mais cochilar. Contamos o intervalo de 4-5 minutos entre cada contração e decidimor ir para o hospital, pois não sabíamos como seria o caminho e tinha bastante chão pela frente.

Fomos para o hospital no carro da Kika, fui ajoelhada no banco de trás com ela, o Leandro dirigindo e minha mãe dando as coordenadas. Assim que pegamos a estrada, chorei pela segunda vez, dessa vez de emoção. Não conseguia acreditar que eu havia conseguido chegar até ali, não conseguia acreditar que eu ia ter o parto que sempre sonhei, não conseguia conter as lágrimas diante do poder da natureza e do corpo. Um filme novamente passou na minha cabeça, tudo o que havia lutado pra chegar até aquele momento valera a pena. A estrada estava tranquila, vocalizava e me alongava a cada contração, a Kika me ajudava a lembrar de não tensionar os músculos e a respirar. Tentamos algumas vezes ligar pra minha obstetra plano A no caminho, mas o celular dela estava sempre desligado. Decidimos então avisar a obstetra plano B. A Kika logo conseguiu falar com ela, e ela nos encontraria no hospital.

Logo chegamos ao hospital, perguntamos na recepção se poderíamos subir pra ala obstétrica e a recepcionista perguntou se era urgente. Uma contração respondeu à pergunta dela. Minha mãe, que estava quase parindo, finalmente respirou aliviada, e eu pude me entregar em paz. Passamos pela triagem, estava com 5-6cm de dilatação, ainda rindo e conversando tranquilamente, as dores estavam suportáveis. As ondas das contrações vinham, e eu as abraçava. Não conseguimos contatar a obstetra plano A e logo a plano B chegou, conversamos um pouco, ela me examinou, auscultou o coração da Alice, estava tudo ótimo. Fomos para a sala de parto. Assim que entramos, pedi para ir pro chuveiro. Fiquei um pouco com a água morna caindo nas costas e fui fazer a primeira dose do antibiótico pelo strepto positivo. Tinhamos combinado que eu não ficaria com acesso venoso se não quisesse, e eu não queria, mas como já estava há muitas horas sem comer e sem dormir, pedi um soro glicosado, que foi retirado assim que pedi. Fiquei rebolando na bola algum tempo, não sei quanto pois fiquei de costas para o relógio, queria me desligar de tudo. Quando ja estava com 7-8cm, a obstetra plano A ligou para o celular da Kika e falamos brevemente ao telefone, ela queria saber se ela precisava ir ainda ou se estava tudo bem, decidimos que a plano B continuaria me acompanhando, estávamos nos dando bem, estava tudo como eu sempre quis. Luz baixa, silêncio, massagens da Kika, tudo maravilhoso.

A obstetra e a Kika sugeriram que eu agachasse durante as contrações pra ajudar a Alice a descer, assim fizemos. A Kika me apoiava, eu agachava alongando o peso das minhas costas nos ombros dela. Urrava como uma leoa. Quando terminou uma contração, a Kika me perguntou de 0 a 10, quanto estava a escala de dor, respondi “hum, acho que uns 7”. Todos rimos. Quase 9cm de dilatação e a dor ainda estava no 7. Ironicamente, a próxima contração foi um 10 na escala, e assim foram as seguintes. Desse ponto em diante, não lembro muito bem da ordem dos fatos. Lembro de alguém falando “anestesia agora não parece uma má idéia, né?” e eu respondi “cesárea agora não me parece uma má idéia”, ainda tinha um restinho de senso de humor pra fazer piadas, mesmo com as contrações vindo uma em cim da outra.

Ouvimos um pouco de música, e Nando Reis me fez chorar novamente. “Por onde andei enquanto você me procurava?”, sentia que era a Alice cantando pra mim, minha pequena cura. No próximo exame de toque, a feliz notícia de que estava com 9, quase 10cm. Chegava a hora. Mas eu só queria dormir um pouco. Estava exausta, com dor, suada, com fome e sem vontade de comer, e tremendo de frio (ou nervosismo). Pedi pra ficar novamente de quatro na cama e chochilava a cada intervalo de contração, assim se passaram quase 2h, pelo que me contaram. As contrações começaram a espaçar e a obstetra sugeriu que eu voltasse a me movimentar, mas o humor já tinha ido embora pelo ralo, e eu negava tudo, só queria descansar mais um pouquinho, e fazia “shh” pra todos ficarem quietos quando vinha mais uma onda de contração, reclamava que estava ardendo, “Ana, tu sabe o que é isso, tu estudou!”, disse a Kika. A partolândia existe, e eu só percebi que conheci depois do nascimento.

Depois de algum tempo, comecei a chorar de dor, de cansaço, só queria que tudo acabasse, só queria minha pequena nos braços. Chorei e fraquejei. Disse que eu não aguentava, que eu queria anestesia, que eu PRECISAVA de anestesia. Todos ali sabiam que era a hora da covardia falando, a obstetra me disse que não tinha anestesista de plantão e que levaria uns 20 minutos pra ele chegar, que se eu quisesse mesmo tudo bem, mas que a Alice já teria nascido até lá. No fundo, eu sabia que eu não precisava disso, eu não queria isso. Autorizei mais um exame de toque e, sim, estávamos com 10cm, Alice a 1,5cm de nascer.

“Só depende de mim”, me disse em pensamento. Era a injeção de ânimo que eu precisava. Levantei da cama e começamos a procurar a posição que eu me sentisse mais confortável. Vinha a contração, a Kika me segurava por debaixo dos braços e eu agachava. Passava a contração, e eu me encostava na bola. Assim fomos, não sei por quanto tempo. Quando a Alice coroou, a voz animada e emocionada da obstetra me deu mais uma injeção de ânimo: “Ana, ela ainda está na bolsa! Ela ainda está na bolsa!”. Mais algumas contrações, e saiu a cabecinha empelicada da minha pequena. Continuei fazendo força, mesmo sem sentir vontade. A Kika e a obstetra me perguntavam se eu estava sentindo o puxo, eu não sentia, mas por desespero, continuava fazendo força. Logo senti todo o corpinho da Alice escorregando. Às 17h41 daquela quinta-feira ensolarada, “nasceu!”, eu disse em meio a risadas.

A bolsa tinha furado perto do bumbum da Alice, mas não tinha rompido 100%. Minha jóia nasceu dentro da bolsa, com uma circular de cordão. Imediatamente veio para o meu colo e fez xixi e coco. A emoção foi tanta, foi tão inacreditavelmente lindo que eu não chorei, eu sorri. Sorri ao namorar minha pequena. Sorri ao vê-la mamando assim que nasceu. Alice nasceu com 48,5cm e 3,610kg, e o cordão foi cortado pelo pai depois que parou de pulsar. Alice não teve intervenções desnecessárias, não foi aspirada e não recebeu o colírio de nitrato de prata. Uma bolinha cor-de-rosa, que, diferente da irmã, que chorou a plenos pulmões assim que foi tirada de dentro de mim, não chorou ao nascer. Apgar 9/10.

Depois de nos namorarmos bastante, levaram a Alice pra pesar e medir, e a obstetra suturou os 12 pontos de laceração natural que tive. Pari a placenta, a olhamos com muito carinho, agradecendo internamente por ter nutrido tão bem minha bolinha. Eufórica, queria levantar e tomar banho, mas sofri uma queda de pressão e não consegui levantar da cama. Dormi por alguns minutos, até que o Leandro trouxesse a Alice novamente pra mim. Por protocolo do hospital, ficamos 2h no pós-operatório, onde comi e bebi, e logo subimos pro quarto. Assim que chegamos, pude tomar meu banho tranquila, sentar na cama e amamentar com toda calma minha bezerrinha.

Hoje fez 1 mês que a Alice veio pra alegrar mais ainda nossas vidas. É estranho agradecer por ser tratada com respeito, mas gratidão e carinho é o que eu carrego no meu peito hoje, por todos os profissionais que estiveram ao nosso lado nesse renascimento, por terem nos tratado com tanto respeito.

Hoje eu posso dizer: o parto não é só do bebê, é da mãe também. Renasci ao colocar minha filha no mundo. Somos mulheres, somos fortes, sabemos parir. Não deixem que um médico acomodado e desatualizado roube esse momento da vida de vocês. Informação é o maior remédio contra o medo. Leiam, busquem, informem-se e agarrem o nascimento dos seus filhos com unhas e dentes, não deixem que ninguém tire isso de vocês sem que haja necessidade. Não, via de parto não faz ninguém mais ou menos mãe, mas é a experiência mais extraordiária que uma mulher pode ter. Tomem as rédeas de seus partos, das suas vidas.

Como uma leoa, este é meu grito de renascimento: eu consegui! eu PARI!

Alice_

Um beijo enorme às agradáveis surpresas que a vida me trouxe: Kika DoulaKarla Brouwers, vocês são demais! Não consigo pensar em equipe melhor pra ter ficado ao meu lado nesse momento tão precioso! “

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