4.ago.2015

Quando nasce um filho….nasce também uma “torneirinha” !

 Mãe chora. Ponto! Ah…que clichê mais antigo…claro que mãe chora! Não me conte mais nada, nós já sabemos, mãe chora por tudo. Absolutamente tudo. O que nunca ninguém contou, é que mãe chora um choro diferente, de alma, forte!Eu sei!Eu chorei..

A Julia nasceu de cesariana, fruto de um relacionamento de 7 anos com meu então namorado, o amor da minha vida talvez, mas esta é uma outra história…mais uma boa história.

O fato é que ali, as 17:52, do dia 21 de março de 2011, nasceu junto com a minha filha, uma torneirinha. Sim! Uma torneira que pinga sempre, e as vezes vaza, inunda, transborda…os meus olhos, os nossos olhos da alma. Olhos de mãe, choro de mãe.

Tive uma cesariana tranquila, claro que com os incômodos da cirurgia, alguma ânsia, mas tudo dentro da normalidade. Depois que a Juju esteve em meus braços fui para a sala de “recuperação de anestesia”. Subi para o quarto lá pelas tantas da madrugada, ainda com a sonda, claro sentindo dores, mas não quis reclamar. Do meu lado estavam uma mãezinha com seu bebê, que dormiam feito anjos. Pela manhã a Julia veio novamente. Eu já nervosa, preocupada em saber o porquê da demora em estar com o meu bebe, se ela havia mamado depois de tanto tempo. Foi então que a enfermeira me explicou que após o parto, recém-nascidos, “aguentam” algum tempo sem receber alimento. Passamos o dia bem, recebemos visitas das titias, das Vovós. Que sorte! Meu bebe era um anjo, calma e tranquila! Troquei fraldas, dei carinho, e tive muita dificuldade na hora de amamentar, exatamente…mãe de primeira viagem. Mãe de primeiro choro! Torneira nova…Sabem como é!

Pela tarde, todos se foram. Inclusive a mãezinha, companheira de quarto. Ficamos somente eu e a minha Julia, juntas e misturadas. O medo fez companhia também, veio e rondou minha cabeça, vários pensamentos sobre o futuro e a responsabilidade que estava ali em meus braços, tão frágil. Tão dependente. A torneira abriu, claro…e rios de lágrimas invadiram meus olhos, e chorei ali sentada com ela, na poltrona de amamentação.

Sei que chorei, e então não me lembro mais, como uma borracha, apagou da minha mente o que veio a seguir. Acordei com as enfermeiras me levantando com dificuldade, e me colocando na cama. Um médico estava lá, as enfermeiras estavam, alguém da administração do hospital também, uma psicóloga. Só não estava a Julia,ôpa, cadê a Julia? A torneira abriu novamente, mas dessa vez acompanhada do desespero.

Eu tive um mal súbito, um desmaio, não sei direito até hoje! Esqueci. A torneira abriu e já estou derramando lágrimas…está espanada na verdade, pinga com frequência esta minha torneira.

A Julia caiu dos meus braços, e o resultado foi o tão temido traumatismo craniano. Transbordei, inundei, rios …chorei…muito e mais, a vida estava tirando de mim o que acabara de receber. Que covardia vida! Chorei de novo, desesperada, magoada.

O que veio a seguir eu não me lembro exatamente, lembro da minha médica obstetra que veio e prolongou em mais um dia minha estada no hospital. E minha mãe, o meu anjo (outra boa história também, deixo para outro artigo), que passou a noite ao meu lado, na poltrona de amamentação, tentando conter meu desespero. Ela chorou, a torneira dela também vazou…eu vi, baixinho, mas escutei. Minha torneira está pingando de novo…

Durante o dia eu vi a minha filha pelo vidro, as enfermeiras não me deixaram ficar com ela e nem pega-la, eu fiquei encostada no vidro da maternidade por 18 horas, sem comer, sem ir ao banheiro e suplicando em pensamento para que ela se mexesse para eu saber que estava tudo bem.E chorei, chorei compulsivamente, e solucei…Nesta altura o hospital todo já sabia do ocorrido e muitas mães me olhavam e também choravam! Choraram comigo, suas torneiras frágeis se sensibilizaram com a minha situação e transbordavam também.

“Vou transferir para a UTI neonatal”, escutei da médica, ao anoitecer. O meu mundo acabou, as comportas de uma barragem se abriram e eu chorei por horas dentro do banheiro do hospital, chorei, ajoelhei, orei e me entreguei ao mais sofrido desespero…e pedi :“ Vida não a leve, deixe-a e leve a mim”

Foi então que uma força única tomou conta do meu corpo, força essa que me move até hoje, e eu me levantei e fui até a UTI.Fiquei lá ao lado dela por toda a noite, ela só de fraldas dentro de uma incubadora, tão pequena, tão frágil, estava frio… e eu em uma cadeira, recém operada, ao lado da razão da minha existência. Juntando todas as minhas forças para o que viria a seguir.

Amanheceu, a minha pequena foi fazer exames para saber da lesão. Minha mãe acompanhou, me faltou coragem. Sim! Mãe as vezes perde um pouco da coragem!!O meu anjo nem precisou ser sedada, não se moveu e os exames foram feitos. Claro que eu fiquei com a torneira aberta, aflita! Desesperada!

“O organismo está absorvendo a lesão”Chorei.Chorei, agradeci…e chorei. A esta altura a torneira já estava mais do que espanada…jorrava litros. Recebi alta, mas não ia de forma alguma sair da maternidade sem a minha filha nos braços. Nunca! Então chorei novamente. Juntei forças e resolvi encarar de frente a situação, lógico que a torneira continuou a pingar. Mas eu tinha lenços…

Passamos mais uma noite na UTI, nesta, conversei com as mãezinhas, soube das histórias, e adivinhem? Descobri várias outras torneiras, guerreiras! Porque passar a noite na UTI infantil é só para os fortes! E chorões, claro.

Pela manhã, recebi a notícia da alta da Julia.Ahhhh, chorei muito, minha torneira abriu que parecia mais uma mangueira de quintal…a água caia como chuva em temporal…e então veio a felicidade misturada a dúvida. “Será que minha filha está mesmo bem para alta? ”. Ou será que querem só desocupar o lugar para outra criança? ”. Eu insisti tanto com a médica para a alta “Dúvidas, dúvidas, choro, dúvida, telefonemas, gritos com minha mãe que só tentava me trazer a realidade.

Então, levantei a cabeça, fechei a torneira, lavei o rosto e pensei; ”Agora é comigo”!

Saímos do hospital por volta das dez da manhã, não usei a saída que havia ganho da minha mãe, nem a manta que minha tia havia costurado a mão. Mas, saímos, felizes, saiu dali uma recém-nascida, guerreira, linda! Acima de tudo, saiu da maternidade uma Mãe, de torneira frouxa, que chora a cada felicidade ou tristeza, a cada recomeço e a cada fim( e são tantos)!A Julia não teve sequelas, hoje é uma bailarina linda e cheia de vida. A minha Juju também tem uma torneirinha. Aliás, porque as crianças choram tanto?Ah, conto depois, minha torneira abriu novamente.!

E você mãezinha, também tem uma torneira frouxa? Conte-nos, escrever alivia a alma, e também abre torneiras!!!

Beijos Tati

novacolunista_tati

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  • Karin

    A minha torneira abriu na momento que coloquei os pés fora do hospital. Que sensação gostosa e, ao mesmo tempo, estranha.
    Me entregaram “algo” que sempre sonhei, que sempre quis, o MEU filho. Me entregaram, junto com ele, um mundo assustador, a maternidade. E eu chorei, chorei muito. E hoje, prestes a receber meu segundo filho, minha primeira filha, a torneira espanou de vez, chorar se tornou rotina.

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