23.nov.2015

Ser filha de mãe solteira

Mamães, hoje tenho uma convidada muito querida, a Sabrina Donatti, mãe da Malu e autora do blog Mamãe em Construção. Ela é filha de mãe solteira e pedi para ela compartilhar conosco sua história, que nem sempre foi fácil de entender (e aceitar), mas que a transformou nessa mãe maravilhosa que é hoje, tenho certeza que a história dela vai emocionar vocês!

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” Sou filha de mãe solteira e hoje falo isso com a maior tranquilidade do mundo, mas isso um dia já me incomodou. Pela minha mãe ser mãe solteira? Nunca! E sim por ter um pai em algum lugar que simplesmente não queria ser meu pai.

Demorei muito para contar um pouco da minha história do meu blog, mas quando contei notei o quanto isso foi importante para muitas mães, mas mais importante para mim. E hoje venho aqui no blog Mãe de Guri contar mais um pouquinho dessa história tão importante para mim, pois é a minha história de vida.

Para tentar resumir para vocês, meus pais namoraram, terminaram e quase um mês depois desse término minha mãe descobriu que estava grávida. Ela resolveu não contar para ele, pois naquela época a história de golpe da barriga era algo bem comum (acho que hoje ainda é) e ela influenciada pela revolução das mulheres dos anos 80, trabalhava, ganhava seu próprio sustento, resolveu que não precisaria de mais ninguém. Conversou com a minha avó e juntas resolveram embarcar nessa história que seria euzinha aqui. Como minha mãe fala, ela queria ser mãe e nunca perguntou a ele se ele queria ser pai.

Um tempo se passou e quando eu tinha 6 meses ela resolveu contar para ele que eu era filha dele. Rolou aquela história dele não aceitar que eu fosse filha dele e tudo mais. Minha mãe nunca entrou na justiça para requisitar nada, ela apenas depois de alguns anos via que o que eu precisava era ter um pai que me amasse e quisesse ser meu pai.

Eu lembro de ter alguns contatos com ele enquanto ainda pequena, mas ele nunca quis ser muito presente na minha vida. Não lembro dele ter me tratado mal e nunca presenciei qualquer briga dele com a minha mãe.

O que eu consigo perceber é que a minha mãe saiu da relação deles muito bem resolvida, não existiam mágoas de um casal, ela queria apenas que ele fosse meu pai. Mas isso não acontecia.

Crescer como uma filha sem pai não é tão fácil numa sociedade que não está preparada para o diferente, e sim para o comum, pai, mãe e filhos. Não importa se o teu pai não quis ser teu pai ou se ele faleceu, a sociedade simplesmente não sabe e muitas vezes não quer lidar com isso.

Sofri muito na escola com professoras despreparadas. Elas sabiam da minha história, pois minha mãe sempre preferia contar que eu não tinha um pai presente, mas algumas professoras simplesmente ignoravam isso. Na segunda série uma professora me obrigou a fazer um trabalho para o dia dos pais, e eu me neguei por afirmar que não tinha pai e ela insistia dizendo que então eu deveria fazer para alguém para o dia dos pais. Zero sensibilidade e zero preparo. Continuei a me negar e a minha mãe teve que ir à escola. Foi sofrido 2 vezes, quando a professora me obrigou a fazer e depois por todos os trabalhos dos colegas estarem expostos e o meu não, já que eu não tinha feito.

Depois na 4ª série a escola volta para a obrigação, apresentação de dia dos pais, obrigatória, numa igreja e com uma gravata do pai. Só pode ser muita falta de noção! Eu morava numa casa que tinham eu, minha mãe, minha avó e minha prima irmã. Onde teríamos gravata nessa casa? Minha mãe pensou em comprar ou pegar emprestada, a solução foi a segunda alternativa, não importava de quem essa gravata fosse pega, ela não teria o simbolismo que uma gravata do pai teria.

Eu sempre tive meus tios e padrinho presentes, mas eles nunca substituíram a figura paterna. Sempre tive muito amor, isso nunca me faltou, mas alguns momentos eram muito complicados.

Outro era quando me perguntavam nome e sobrenome, eu sempre só tive um único sobrenome da minha mãe, pois minha mãe também é filha de mãe solteira e minha avó nunca pensou em colocar o sobrenome dela de solteira na minha mãe (minha avó foi casada, ficou viúva e depois engravidou da minha mãe – olhem a loucura). Então eu sempre fui só Sabrina Donatti.

No começo era bem difícil, pois eu não conhecia mais ninguém, além de mim e da minha mãe, que tinham apenas um sobrenome, então parecia um bicho de sete cabeças em qualquer lugar que eu ia. Mas aos poucos vendo como a minha mãe era uma mãe maravilhosa, super guerreira, que foi atrás de tudo que eu precisava, movia o mundo para me dar o que achava certo, comecei a ter um orgulho muito grande de ser apenas Sabina Donatti.

Minha mãe sempre colocou o orgulho no bolso quando ia atrás do meu pai e ele dizia não querer contato. A última vez que ela foi atrás dele foi por um pedido meu e eu estava junto quando o advogado dele chegou dizendo que ele não queria contato. Naquele momento eu e a minha mãe decidimos que aquilo era um basta, foi difícil, mas eu consegui seguir com a minha vida tranquilamente. Nada mais me abalava, nenhuma palavra ou olhar de estranhamento me causavam qualquer tipo de problema e sim tinha resposta para qualquer tipo de pergunta.

Mas com 16 anos, por vontade da minha tia por parte de pai, ela resolveu nos juntar. E a partir dali eu comecei a ter contato com o meu pai. Nunca foi um contato fácil, pois eu não tinha qualquer intimidade com ele, também ele nunca quis conversar sobre tudo o que aconteceu antes e isso complica bem as coisas. Meu relacionamento com ele até hoje não é algo muito saudável, existem momentos bons, mas momentos muito tensos. Agora vivemos um momento tenso, onde brigamos e eu não tenho a menor intenção de voltar a falar com ele até que ele me procure, pois acho que já o procurei demais.

Ele foi um bom avô para a Maria Luísa, ela gosta muito dele, mas tentei por um bom tempo engolir muita coisa para que a minha filha tivesse contato com o avô, mas vejo que me sujeitar a algumas coisas não é bacana. É muito bacana ter um avô, mas ela já tem avós que querem muito o bem dela e não será por um que fará tanta falta, ainda mais quando é alguém que não parece fazer tanta questão. Acho que nesse momento quem perde mais é ele do que ela, vejo diferente de uma relação de pai e filho que muitas vezes os dois saem perdendo, ainda mais na infância.

O que sempre falo para as mães solteiras, sejam amorosas com seus filhos e não se preocupem que seu filho não terá nada por falta de amor, na verdade, eles entendem que são muito amados pelas mães e por quem está em sua volta. Se alguma quiser um conselho, tente ao máximo o contato do filho com o pai, nunca impeça que esse contato aconteça, mesmo com mágoas de um fim de um relacionamento, se esse pai quer esse contato, não seja uma pedra para que isso aconteça. Mas se esse pai se recusa, simplesmente, nem toque no nome dele perto do teu filho, não fale mal desse pai, apenas siga em frente e dê todo amor do mundo ao seu filho, pois esse homem não fará qualquer falta. Sei que muitas vezes uma mãe solteira precisa engolir seu orgulho para conseguir que a relação do filho com o pai seja sadia, mas tenha certeza que mais na frente tudo isso será recompensado, teu filho sempre saberá todo o esforço que fazes a ele.

Beijos

Sabrina

 

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