29.jul.2016

Sobre a bravura do parto

Gurias, hoje é dia de relato de parto, e para vocês, que amam ler relatos de parto, eis mais um parto inspirador! Mas hoje o relato é do pai, então tem um gostinho super especial, muitas vezes, achamos que por eles não parirem, não entendem, mas sim, eles entendem e podem participar ativamente desse momento tão especial para a família! Quer ler teu relato de parto aqui no Blog? Então mande para [email protected] que em breve estará por aqui! Beijos Angi

“Ainda não falei sobre a decisão da Dani em ter o Davi de parto normal. Dani, para quem não sabe, é minha esposa, e Davi, nosso pequeno e sorridente milagre.

Pois bem, quando decidimos que era hora de termos um herdeiro para chamar de nosso, a Dani começou a ler sobre o parto normal. Eu, homem e medroso, pensei comigo que “não sei se seria capaz”, afinal a medicina já havia evoluído tanto e blá blá blá. Mas ela teimou, e eu abracei a ideia. Eu já não era muito convicto da cesárea (cirurgia é cirurgia!), só tinha medo por eles — ela e ele, de sofrerem no processo — então, resumindo, foi bem fácil de ela me convencer. O método normal exigia cuidados, claro, mas a maior barreira foi encontrar quem fizesse o parto assim. Estamos no Brasil, país que mais faz partos de cesárea no mundo — e a absoluta maioria, desnecessária. Isso também para que os médicos ganhem mais e possam marcar mais cesáreas. Sem me aprofundar nessa parte, a Dani encontrou uma ótima médica que faria o parto normal, e essa questão já estava resolvida. Com um único porém: se passasse das 40 semanas de gestação, ela não esperaria o bebê “querer sair”, e aí iríamos para a cirurgia. “Iríamos”, nesse caso, a Dani, mas eu estaria lá para segurar a mão dela, claro. E consolá-la, caso a cirurgia tivesse que acontecer, para que ela não pensasse no quanto queria o parto normal — o importante, obviamente, era termos nosso pequeno pacotinho com toda a saúde. Com quase 38 semanas, no primeiro dia de férias que tirei para acompanhar a Dani nessa última fase da gravidez, a bolsa estourou. Davi estava chegando.

Era madrugada, umas duas da manhã. Voltávamos de uma janta de sushi com amigos, comemorando a vinda do pequeno que viria logo mais. No caso, o logo mais foi naquela noite mesmo. Depois do susto, nos preparamos para o hospital — depois de eu ter ligado para a médica, avisando que o garoto queria sair. Nessa parte me lembro de um nervosismo enorme da minha parte: se o bebê “respira” o líquido que estava com ele… o que ele estava respirando agora? Dani, no alto de sua sabedoria adquirida nos meses com Davi em sua barriga, me acalmou: “calma, ele pode ficar muitas horas aqui dentro ainda”, disse ela já com um pouco de saudade de sua enorme pança. Me acalmou por alguns segundos, e fomos ao hospital. Depois de instalados, estávamos os dois (quase três), sozinhos no quarto, vez ou outra uma enfermeira entrava para ver como estava a Dani. E ela firme. As dores das contrações já haviam começado, mas ela radiava algo que não sei bem explicar. Só sei que admirei ela mais ainda.

Lá por volta das seis da manhã, a médica já estava conosco, avisando e questionando a Dani sobre o andamento. Estava tudo bem, e uma das perguntas foi se ela gostaria do tal remédio/anestesia (não me peçam para lembrar o nome!), e a Dani pergunta:

– A dor vai ficar pior?
– Não, a dor máxima tu já está sentindo. E pode atrasar o parto…
– Então não precisa.

Queria tirar uma medalha do bolso, um troféu para a mãe do Davi naquele instante. Eu não tinha, então só sorri de orgulho. E seguimos nós, esperando que o moço abrisse caminho para a vida com a gente aqui do lado de fora. Na última visita da médica, viu que estava na hora, Dani e Davi estavam prontos. Eu? Eu achei que estivesse pronto, mas a verdade é que fiquei bobo quando a médica gritou “gurias, parto!” e quase uma dezena de enfermeiras adentrou o quarto — com uma delas me liberando de segurar a mão da Dani. Fiquei quase sem função, só para assistir o nascimento do meu filho, de camarote. E eu queria ajudar mais a Dani, fazer algo mais por ela e por eles, mas não precisavam de mim. Até que a enfermeira que me tirou do meu cargo anterior (Segurador de Mão da Mãe) lembrou “pai, tu não vai filmar?”, enquanto olhava para a câmera que joguei numa cadeira. Vou!

Filmei tudo, tudo. Ainda não sei como consegui. Olhava ora para a tela, ora para a Dani. E ora fechava os olhos mareados. Até que chegou o Davi. Num último grito da Dani, ele veio em dois instantes, primeiro seu rosto redondo, depois seu corpinho que estremecia com a chegada ao novo mundo. Lembro de balbuciar choroso “meu filho”, e esperei até que o entregassem a Dani para chegar junto deles e ver, pela primeira vez nos olhos, meu pequeno príncipe.

Dani se engajou de uma maneira no parto normal que vou dizer: tem muita ong que deveria fazer o mesmo com suas causas. Me convencer foi a parte fácil, como eu já disse (e virei também defensor!), difícil foi a busca por informação, a busca por médicos, a busca por hospitais. Foi tudo encontrado, bastou querer. E ela queria muito. E eu queria o que fosse melhor para ambos — e foi, e é.

Eu não tenho como falar sobre a bravura de outras mulheres na decisão de terem seus filhos de parto normal — ou natural, mas eu devia essas linhas para a Dani, por ela ter me dado o maior presente em forma de gente, nosso pequeno Davi, e por tudo que ela capitaneou para que ele nascesse da forma que julgava a melhor. Bravura como essa, raramente vi.

Davi puxou os olhos claros de dois dos seus avós, o comprimento e o sorriso fácil são meus, a boca é igual a da mãe — e seu rosto ora parece comigo, ora com ela. Só desejamos (e faremos de tudo para) que ele cresça uma pessoa do bem e para o bem. Eu, particularmente, adiciono que ele puxe a bravura da mãe. “

pós_parto

Luciano Seade

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