20.maio.2016

Virei mãe… E agora, tenho medo de dirigir?

Certamente se perguntarmos para um amigo ou parente, vamos perceber que o assunto desse texto não é nada incomum. Pelo contrário, o medo de dirigir é frequentemente referido. Não é raro conhecer uma pessoa habilitada, que venceu todas as aulas práticas e foi aprovada no exame, mas depois disso… Dirigir é uma ideia que passa longe e que gera grande desconforto!

O medo de dirigir na população geral apresenta-se em torno de 8%, sendo a prevalência em pessoas do sexo feminino. Sim, mamães muitas de vocês, não são as únicas mães que não dirigem! Esse medo atinge indivíduos de todas as idades, mas as mulheres são as que mais sofrem com o problema, algumas têm receio de tirar o carro da garagem, enquanto outras se sentem um pouco mais confiantes e mesmo que não consigam dirigir em ruas movimentadas, pegam o carro, mas precisam adquirir prática e calma. Já, outras sentem nervoso só de ver o caro da autoescola na rua.

O fato de conseguir dirigir um veículo representa, em geral, liberdade. Liberdade para ir e vir e por isso, a possibilidade de uma vida independente – aliás, esse se torna um dos principais motivos que impulsiona as pessoas a fazer a carteira de motorista. Sendo assim, não dirigir pode causar um impacto importante na vida pessoal do sujeito, afetando algumas atividades diárias e também, gerando sensações de limitação, estresse e até de fracasso. Porém, nenhum de nós nasce com a capacidade de regular as reações emocionais, essa capacidade é uma tarefa que se estende ao longo do desenvolvimento humano e tem relação com nossos padrões de apego, com a maneira que sentimos e percebemos as relações. Ou seja, não nascemos “prontos” para lidar com nossos medos, muitas vezes, é preciso entender o que aquele medo específico significa ou o que ele “quer nos dizer”.

Falamos sobre o medo de dirigir, mas afinal o que é medo? Medo é um sentimento que serve para nos proteger do perigo e por isso, sentimos medo em situações nas quais o perigo é iminente. Já, quando o medo se torna quase irracional diante de uma situação ou objeto que não apresenta perigo para a pessoa, falamos de uma fobia. E por temer demasiadamente, por exemplo, dirigir um carro, será essa a situação a ser evitada. Como o ato de entrar em um carro e dirigir é temido e causa mal-estar é comum o comportamento de evitação, o que afasta ainda mais a possibilidade de vencer este desafio.

Pessoas com medo excessivo tendem a se sentirem paralisadas, ou agem sem pensar, inseguras não conseguem tomar as decisões adequadamente, enfrentando grande desconforto físico e psíquico, como: coração acelerado (taquicardia), sudorese e enjoos, são alguns deles. Certas pesquisas identificaram que motoristas com sinais e sintomas de ansiedade cometem mais erros na direção do que motoristas sem essa dificuldade, então é mais fácil realizar o uso incorreto das faixas, corrigir ações tomadas, realizar a troca de marchas de forma inadequada, por exemplo. E falar do medo de dirigir, requer poder escutar quem passou ou passa por isso, muitas pessoas relatam os seguintes medos, independente de terem ou não a habilitação: achar que o carro é que domina; sensação de que vai ter pouco espaço para passar; medo de causar um acidente ou atropelar alguém na rua; medo que o carro “caia” na rampa. Ou ainda, medo de perder o controle do carro, esse medo eu mesma já senti!

Como estamos percebendo, o tema não é tão raro assim e inclusive alguns estudos reuniram características comuns em pessoas com medo de dirigir, e a conclusão é que de esse medo atinge pessoas extremamente responsáveis; pessoas confiáveis, organizadas, sensíveis e inteligentes e que tendem a se preocupar com os outros; porém não gostam de críticas, as críticas podem lhe causar mágoas e irritabilidade. E no geral, as pessoas com medo de dirigir, tem medo de errar, além de apresentar alto grau de exigência consigo mesmo, serem ansiosas e inseguras. Contudo, é claro, que tais características não se restringem as pessoas com esse medo ou que demais pessoas, não possam apresentar essas mesmas características. O motorista é uma pessoa e como toda pessoa, tem a sua personalidade.

Por isso, é preciso entender o medo de dirigir de forma particular, entendendo sempre, qual o sentido e o significado daquele medo para aquela pessoa. Esta na história de cada um a explicação para o medo de dirigir, por que, cada um de nós, teve um tipo de educação, de formas de reagir aos desafios, das soluções que encontramos para os problemas, entre outros. Normalmente, imagina-se que alguém que tenha medo de conduzir o carro é porque não domina a prática e em parte esta afirmativa é verdadeira, mas não é o “todo’’. O que pode preocupar a pessoa com medo (excessivo) pode ser outro(s) tipo(s) de medo(s), como o medo da desaprovação ou o medo de errar, para exemplificar. A insegurança frente ao volante decorre de múltiplos fatores, entre eles um trauma, especialmente os decorrentes de acidente ou pode aparecer como um estresse pós-traumático e para tais casos, será necessário a avaliação de um psicólogo ou psiquiatra, bem como quando o medo paralisa e se torna fator prejudicial na rotina do individuo.

Mas, vamos com calma! E por partes, pois tem como SUPERAR o medo e poder assumir a direção do carro e da vida também! Há hoje um consenso de um conjunto de práticas que auxiliam as pessoas, são eles:

– controlar a ansiedade e acreditar que você é capaz;

– dirija para você, sem precisar provar nada para ninguém;

– comece com pequenas distancias (por exemplo, uma volta no quarteirão) e vá, gradualmente aumentando a distância;

– faça o exercício de ligar e desligar e mexer nos pedais com o carro parado;

– se não conseguir sozinha, peça ajuda (chame uma amiga, marido, etc) para lhe acompanhar;

– não desanime frente às dificuldades, com treino e frequência a confiança tende a aumentar.

Enfim, conquistar a condição necessária para dirigir é mais do que aprender a técnica e a prática de direção, envolve aspectos emocionais que precisam ser considerados e em determinados casos, tratados, através de psicoterapia, para que a pessoa se sinta em condições de usar seu aprendizado, além de abordar outros medos existentes. Vencer o medo trará a tão sonhada habilitação e quem sabe, não proporcionará assumir o volante da própria vida!!!

Luiza Cantarelli Coradini
Psicóloga Clínica
CRP: 07/20819
Especialista em Psicoterapia da Infância e Adolescência

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